#Rebobinando | Que Horas Ela Volta? é tão brilhante quanto o ouro dos troféus que já recebeu!





Há algumas semanas eu decidi que precisava me focar um pouco mais nos lançamentos nacionais do cinema! Comecei essa onda de brasilidade e patriotismo vendo o “Entre Abelhas” do Fabio Porchat, que me surpreendeu muito pela sensibilidade. Agora, pra não sair do clima, eu acabei vendo “Que Horas Ela Volta?” e nem tenho palavras para descrever o quanto eu fiquei feliz com a minha escolha!
Pandora Filmes | Anna Muylaert | 2015
Nessa história a pernambucana Val se mudou para São Paulo a fim de dar melhores condições de vida para sua filha Jéssica. Com muito receio, ela deixou a menina no interior de Pernambuco para ser babá de Fabinho, morando integralmente na casa de seus patrões. Treze anos depois, quando o menino vai prestar vestibular, Jéssica lhe telefona, pedindo ajuda para ir à São Paulo, no intuito de prestar a mesma prova. Os chefes de Val recebem a menina de braços abertos, só que quando ela deixa de seguir certo protocolo, circulando livremente, como não deveria, a situação se complica.
Val mora na casa dos patrões há muito tempo e hoje em dia é considerada “da família” por todo mundo! Não poderia ser diferente, ela criou o Fabinho enquanto o pai e a mãe vivam sua juventude, o garoto  trata Val como se ela fosse sua própria mãe, conta segredos, pede conselhos, conversa, pede carinho... mesmo assim Val dorme num cubículo lá nos fundos da casa, come numa mesa separa lá na cozinha, e só come o que deixam ela comer depois que os patrões já comeram, ela nunca sequer pisou na piscina da casa, mas tudo bem! Sempre foi assim, é assim que a empregada tem que agir...
Tudo vira do avesso quando Jéssica, a filha de Val, chega do nordeste e vem passar alguns dias na casa dos patrões de sua mãe. A menina chega em São Paulo para tentar o vestibular de arquitetura na FAU, uma das mais concorridas do pais. A partir daí, uma série de eventos irão colocar em cheque o lugar dos empregados e dos patrões nesta dinâmica “do lar”. A garota não aceita ser tratada como filha da empregada, ela é uma hospede na casa da mãe... quer comer na mesa de jantar, tomar sorvete na sobremesa e cair na piscina quando estiver fazendo calor, no começo a garota assume esse papel agressivo, fica chata e perde toda a oportunidade que tem de fazer as coisas do “jeito certo”, mas depois você percebe quem é que esta certo nessa história e consegue se encantar com coragem da menina!
Jessica é ambiciosa e sabe que vai conseguir chegar onde quiser no futuro, é por isso que ela pode parecer muito egoísta as vezes, mas eu consigo entender e adorar essa rebeldia! Ela não se contenta com o pouco que tem e colocou na cabeça que precisa lutar pra conseguir mais... quem disse que ter pouca grana é uma fraqueza não sabe o que é ter personalidade!
O filme é calmo, tem um enredo sensacional que coloca o dedo nessa ferida aberta e pulsante que nós chamamos de relação entre patrões e empregados domésticos! É impossível não se identificar com o que vemos na tela, tanto de um lado quanto do outro... minha mãe foi empregada doméstica e babá durante toda a minha infância, ela também trabalhou  muito tempo com a mesma família, criou a primeira filha da patroa e também era considerada “da família”, mesmo assim ela passou por certas coisas que ninguém precisa passar!
Não me acho melhor, só não me acho pior!
O filme emociona e diverte com competência, de uma maneira que se vê raramente quando o assunto é o cinema nacional! Impossível não se encantar com a fotografia e a composição de algumas cenas, como as do corredor escuro e frio que divide os quartos da casa ou aquela da família reunida pra jantar em silencio por causa dos smartphones... “Que Horas Ela Volta?” traz a tona esse tabu que existe há muito tempo e ainda assim é pouco discutido!
Regina Cazé está brilhante, há muito tempo que eu não vejo um papel tão bem interpretado no cinema nacional! Ela consegue dar vida para a empregada doméstica sem ser uma caricatura disso, é simples, suave! Ela protagoniza o filme da melhor maneira possível, a prova disso é que acabou levando o Prêmio Especial do Júri Pela Atuação no Festival de Sundance, que não foi o único que o filme ganhou!
Nessa estante já tem o Prêmio da Confederação de Cinemas de Arte e Ensaio e o Prêmio do Publico no Festival de Berlim, o Prêmio de Melhor Roteiro do Festival Internacional RiverRun dos EUA, Prêmio de Melhor Filme no Festival de Amsterdam e o Troféu APC no Festival de Cinema de Lima!
O filme também é o preferido do publico para concorrer ao Oscar ano que vem na categoria de Filme Internacional! Eu me pergunto quando é que o brasileiro vai ter um Festival de cinema pra chamar de seu? Quando é que nós vamos aprender a pagar o ingresso do nacional e prestigiar nossas produções? Mas enquanto isso não acontece, nossos filmes estão aí, brilhando lá na gringa e fazendo merrecas nas bilheterias nacionais!
RENAN RIBEIRO
Geminiano, quer ser escritor e jornalista, vive estudando e trabalhando mas sonha com o dia em que vai passar muito mais tempo criando romances sentado na varanda da casa de praia em algum lugar paradisíaco do Brasil, viciado em café, catuaba e cachorro quente, alguns dizem que ele não é uma boa companhia... clica aqui pra conhecer a equipe!
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